Escrevendo uma história vs. Lendo uma história

9 de setembro de 2015

O podcast dos Agentes do L.I.V.R.O. já tem mais de um ano de idade, e desde o primeiro episódio que gravamos, eu e o Thiago sempre falamos sobre o que gostamos ou não gostamos numa história. “Eu gostei deste livro porque os personagens são ótimos” ou “O plot deste livro é fenomenal” ou “este livro cai em tudo que é tipo de clichê” são frases que vocês ouvem com bastante freqüência na nossa sessão de Leituras da Semana. Durante todo esse tempo no papel de leitores, analisamos todos os aspectos dos livros que lemos, tentando expressar de maneira sincera nossas opiniões a respeito deles.

A grande questão aqui é: o que aconteceria se os papéis de leitores e de autores se invertessem?

Há algum tempo, li em algum lugar que “se você não encontrou uma história que te agrade, escreva você mesmo a sua história”. E, acreditem, essa situação tem acontecido comigo com bastante freqüência: eu ocasionalmente penso “estou com vontade de ler um livro com protagonista de um jeito X e Y, que passe por uma aventura Z com seus amigos W e J”. Eu pedia por recomendações e, ocasionalmente, eu tinha a sorte de ter algum amigo ou conhecido que já tinha lido uma história mais ou menos desse estilo. No entanto, ocasionalmente eu tenho um gosto um pouco mais… peculiar (dispenso referências a 50 Tons de Cinza): eu queria ler um livro protagonizado por um(a) violinista em uma história que não envolvesse nenhum tipo de romance, ou um livro com uma protagonista adolescente que não seja muito bonita, mas que seja extremamente ágil. Ou um livro com uma história de amizade entre duas pessoas de sexos opostos. Os “filtros” só aumentavam conforme eu ia lendo histórias que eventualmente acabavam caindo em clichês, até chegar um momento em que simplesmente não existiam livros que contavam histórias exatamente da maneira como eu gostaria de ler. E às vezes não é nem preciso ir muito longe: e quando você quer ler um livro com protagonistas de etnias diferentes e que não caiam em esteriótipos? E quando você quer ler um livro com uma protagonista feminina asexual? Por mais que tenhamos autores que retratem tipos “menos comuns” de personagem, vai chegar um momento em que as histórias desses determinados autores se esgotam. E aí? Devo ficar na ressaca literária até que apareça outro autor cujo estilo de escrita satisfaça as minhas vontades?

Um certo dia, eu pensei “se eu estou tão chata assim com restrições, por que eu mesma não escrevo minhas próprias histórias?”. E por que não, né? Eu posso não ser uma escritora profissional, mas acho que o que eu escrevo é relativamente legível (bom, pelo menos ninguém aqui no blog reclamou) e eu tenho algumas idéias de plot em mente. Foi isso que eu resolvi fazer: peguei uma boa caneta, um pequeno maço de folhas de fichário e comecei a escrever a minha história.

Não, não estou pensando em desistir, muito pelo contrário. Estou trabalhando com carinho nessa história sempre que tenho algum tempinho livre e, por enquanto, tenho 35 páginas do primeiro rascunho. Quem acompanha os podcasts sabe que ultimamente tenho lido uma quantidade razoável de livros que dão dicas de como escrever melhor, de como se dá o processo de publicação de um livro e similares. Não foi apenas por hobby, eu tenho usado várias das informações que tenho adquirido ao longo desses meses de leitura, incorporando essas dicas no meu hábito de escrita sempre que possível. Mas eu tenho que dizer: como é complicado escrever uma história, hein??

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Não, sejamos justos: escrever a história mesmo não é difícil. Colocar suas idéias no papel é relativamente fácil quando você tem uma idéia geral da história que você quer contar, de como são os personagens que você criou, quais são os ápices da sua história e como você pode chegar lá. Minha dificuldade em continuar a escrever é: como proceder quando você se apega demais a um determinado personagem e acaba querendo contar apenas a história dele? Como manter o fluxo da história tão gostoso de ler quanto está sendo gostoso de escrever? O que fazer quando você sabe que a sua história está incoerente em diversas partes? Como resistir à tentação de reler o que você escreveu até então para corrigir todos os problemas de narrativa que você sabe que existem? Como deixar menos maçante para o leitor um trecho que está sendo particularmente dificil de escrever? Como saber se o plot está andando rápido demais ou devagar demais, ou se você está deixando o ritmo da história uniforme?

A cada página que eu escrevo, eu começo a entender melhor a luta que certos autores têm ao contar a sua história. Às vezes algumas coisas que estão bem claras para você podem não estar tão claras para quem está lendo. Você tem o mundo inteiro em que se passa a história, todos os personagens, todas as cenas rodando repetidamente na sua mente. O leitor não faz idéia do que está acontecendo. Como você faz para mostrar a ele/a a maneira como você enxerga esse universo que você criou? Como passar suas idéias para o papel de tal maneira que o livro não tenha mais de 1000 páginas?

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Eu sei que muitas dessas questões já foram abordadas no podcast Writing Excuses (para leitores inveterados que entendem bem inglês, é uma excelente pedida), mas mesmo todo o conselho do mundo não vai escrever a sua história por você. Você pode muito bem escutar todo santo capítulo de cada uma das 10 temporadas, ler tudo que é livro de “como se tornar um escritor competente” e decorar tudo que é fórmula de “livro de sucesso”, esse material todo só consegue te conduzir a um determinado ponto da sua jornada. A história continua não escrita até o momento em que você encontrar uma maneira de resolver esse problema imposto por você mesmo, até que você resolva montar esse quebra-cabeças sentença por sentença, página a página.

Bem, não tenho pretensões de me tornar uma escritora profissional. Eu já trabalho em algo que gosto bastante, mas escrever está sendo um hobby bem… interessante. Eu estou aprendendo bastante a respeito do processo de criação de um livro e isso ao mesmo tempo está me fazendo ver as histórias que leio com outros olhos. E, como não poderia deixar de ser, a todos os escritores, uma salva de palmas pelo esforço e pela coragem!

A imagem do post veio daqui!

  • Lucas Albuquerque

    Oi Melanie, Muito interessante esse seu texto, e inclusive bate com algumas idéias que tive recentemente.

    Acho que a questão principal para suas perguntas é que, no fim das contas, escrever é como qualquer outra atividade: quanto mais você se “profissionaliza”, descobre mais regras e métodos para atingir esse objetivo.

    Na minha opinião isso é bem válido para autores com o BS, que escrevem vários livros ao mesmo tempo. Já para pessoas que fazem isso “informalmente”, esse tipo de qustionamento faz você perder a “magia”por trás da escrita: que pra mim é quando alguma coisa em você pede para se materializar na forma de palavras. Claro que esse é minha opinião, baseada nas minhas experiências próprias.

    Outro ponto imporante é que, ao meu ver, revisar e tentar fazer “os pontos se ligarem” é função de aguém com uma visão mais tçnica da coisa, o que necessariamente não precisa ser o próprio autor. Eu poderia falar sobre sse assunto por horas, mas vou resumir dizendo para você relaxar e não fazer com que preocupaçãoes bloqueiem seu processo criativo.

    Abraços!

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