Discussão – A santíssima trindade dos livros YA

24 de junho de 2015

Quem acompanha os nossos podcasts já deve ter percebido que existe uma grande tendência entre os nossos gostos literários. Eu e o Thiago geralmente tentamos ser mente aberta com os livros que costumamos ler, justamente para que possamos falar sobre diversos livros diferentes. No entanto, existem certos elementos da literatura que são um pouco mais difíceis de aceitar depois que você tem uma certa “bagagem literária”. Por exemplo, eu acredito que passei a ficar muito mais exigente com personagens femininas em livros depois que li a trilogia Jogos Vorazes, da Suzanne Collins. Eu acho bastante difícil encontrar histórias com atmosfera gótica que me agradem depois de ler a série dos vampiros de Anne Rice. Também achei bastante complicado olhar para qualquer outro livro que siga a fórmula da Jornada do Herói depois de ler os livros da série dA Torre Negra, de Stephen King. Eu acredito que isso seja uma progressão natural a muitas pessoas que têm o costume de ler bastante, embora outros tenham uma facilidade muito maior de relevar certos aspectos de uma história.

Uma coisa que eu mencionei em um dos episódios do podcast foi a “fórmula da santíssima trindade dos livros Young Adult”. Do que se trata isso? Basicamente, são os três aspectos que eu vejo mais comumente em livros do gênero:

  1. Protagonista desajeitada, que é extremamente bonita, mas que se sente extremamente ordinária.

  2. O par romântico que é um rapaz um pouco mais velho, belíssimo, com uma inteligência muito acima da média e desejado por todas as garotas, ótimo atleta, super protetor, na maioria das vezes ridiculamente rico e com um passado misterioso.

  3. Um triângulo amoroso.

Eu não sei se eu diria que esses três elementos são uma “fórmula” para livros YA e romances, mas a maioria dos YA que eu li contém os mesmos. Dá para entender os motivos. Se considerarmos o público-alvo ao qual esses livros são direcionados, esta é possivelmente uma das formas mais fáceis de fazer com que o maior número possível de leitores se identifiquem com a protagonista e satisfazer grande parte das pessoas que buscam justamente esse tipo de história. Eu não acho isso particularmente ruim: acho que nem toda mulher quer ser um gato arisco como a Katniss e, como o Thiago sempre diz, sempre há espaço para esses elementos no mercado literário. O que me incomoda muito nessa santíssima trindade é o fato de elas estarem presentes em MUITAS das histórias que tenho lido ultimamente. Vemos essas três características de maneira bastante evidente na série Crepúsculo, de Stephenie Meyer, no livro O Segredo de Emma Corrigan, de Sophie Kinsella e em diversos outros livros. Vide A Desconstrução de Mara Dyer ou ainda Os Garotos Corvos e a série Instrumentos Mortais. A quantidade de livros que contêm esses elementos parece ser tão grande que quando eu encontro livros que não tenham nenhum desses três itens (ou tenham, mas consigam colocar esses itens de um jeito completamente diferente), ele vira praticamente um “tesouro” para mim.

Às vezes eu sinto que deve ser extremamente difícil incluir relacionamentos em uma história sem que eles soem extremamente clichês. Quando a história é, por exemplo, um distópico, por vezes parece que ainda é possível deixar a parte de relacionamentos em segundo plano. Eu senti que isso aconteceu na trilogia Divergente, da Veronica Roth. Nesta série temos uma protagonista que é inicialmente frágil, mas astuta e, com uma boa dose de treinamento, bastante ábil e impetuosa, um par romântico que não é exatamente a imagem do príncipe encantado (embora ele ainda tenha lá o seu passado misterioso) e o que eu achei mais legal: um relacionamento sem muitos dramas (discutível no caso do livro Convergente). No entanto, o cerne da série de Veronica tende aos problemas que a Tris sentia obrigação de resolver, da mesma forma que em Jogos Vorazes. Ou seja, mais do que o desenvolvimento dos personagens, ambos os livros tinham (ao menos sob o meu ponto de vista) um embasamento muito mais político e centrado nos problemas do universo que foi criado.

E quando o livro é focado no crescimento de uma única pessoa, e não nos problemas morais de uma sociedade?

Um livro que, na minha opinião, fez isso muito bem foi o livro Fangirl, da Rainbow Rowell, e no caso desse livro eu achei bastante interessante a maneira como Rowell conseguiu driblar grande parte dos clichês de história. Temos sim uma protagonista desajeitada na história, mas uma coisa que eu achei bacana no caso de Fangirl é o fato da Cath não centralizar todos os seus dramas pessoais na questão “eu sou feia, será que todo mundo me acha feia?”. O par romântico dela não é um rapaz rico e em certos pontos da história até achei bacana ele está um pouco longe dos esteriótipos de “rapaz perfeito”. Ele não era onipresente, não adivinhava tudo que ela estava pensando, não dava toneladas de lembrancinhas caras a ela e em determinado ponto do livro é até mencionado que ele “estava com princípios de calvície” (que diferença para os galãs de fartos cabelos loiros de grande parte dos livros, não?). Tem triângulo amoroso? Hmm… talvez não no sentido literal da palavra. Tanto o Levi como a Cath passam por situações que levariam a crer que este elemento está presente do livro, mas uma das coisas legais que acontecem é que o foco não fica por aí. Inclusive, a maneira como ambos lidam com essa situação é bem interessante, e ao invés de tornar o plot maçante, acaba deixando mais evidente que os dois são, acima de tudo, adolescentes e seres humanos.

Um outro livro que conseguiu incorporar de maneira bem legal esses elementos YA sem que a história tenha caído no lugar comum foi o livro A Hospedeira de (pasmem) Stephenie Meyer. Neste caso, temos duas protagonistas que são basicamente extremos opostos e, ainda que a história meio que se venda com um drama romântico em um mundo distópico, pelo menos para mim não existiu um triângulo amoroso (na minha opinião, a Wanda nunca gostou muito do Jared, o Jared foi fiel à Melanie do começo ao final e os romances estavam bem definidos entre Wanda/Ian e Melanie/Jared). Ainda que a Wanda seja uma personagem relativamente frágil e indecisa, a Melanie é uma personagem que faz o que pode para sobreviver, tudo isso dentro das próprias limitações físicas. Quanto aos pares românticos, embora tanto o Jared quanto o Ian ainda sejam rapazes incrivelmente belos por qualquer feliz coincidência do universo, ambos também são sobreviventes de um incidente que transformou o planeta em um lugar extremamente… monótono. Eles têm dentro de si um forte instinto de sobrevivência, o que acaba não dando lugar a extravagâncias e futilidades. Embora o livro em si seja meio parado e ainda contenha elementos românticos meio mamão-com-açúcar demais para o meu gosto, existe uma diferença colossal entre ele e a série Crepúsculo. Ele coloca questões morais muito bacanas e representa os diferentes pontos de vista de maneiras bastante interessantes.

Resumindo toda esta ópera: talvez seja inevitável acabar caindo nos clichês da santíssima trindade dos YA, seja em só um dos itens, seja em todos eles. E isso não é necessariamente uma coisa ruim! Como sempre mencionamos, há muito espaço para histórias novas no mundo literário, existe público para tudo que é tipo de história. Se você gosta desses elementos, não se sinta mal. Afinal de contas, gosto é gosto e cada um tem o seu. Mas sempre é interessante notar que existem diversas maneiras de escrever uma boa história, e também é muito bacana conhecer todas essas diferentes opções que temos disponíveis.

E você? O que você acha desses três elementos freqüentemente presentes em livros Jovem Adulto? Deixe-nos suas opiniões com relação ao assunto!

 

Copyright Agentes do L.I.V.R.O. © 2014-2017