Lendo livros em outras línguas

1 de março de 2017

(Disclaimer: a imagem do post veio daqui!)

Desde o começo, eu e o Thiago sempre tentamos motivar as pessoas que têm conhecimento um pouco mais avançado na língua inglesa a lerem mais livros em inglês. Isso foi inclusive alvo de críticas nos primeiros episódios. Lembro que recebemos um punhado de e-mails dizendo “vocês só lêem livros em inglês, eu não leio livros nessa língua”. Alguns episódios mais tarde, o tom mudou um pouco. Recebemos alguns relatos de pessoas que afirmaram estarem começando a ler livros em outras línguas e, apesar do começo um pouco tempestuoso, o costume estava vindo a passos lentos.

Eu leio livros em inglês já faz um bom tempo, e muito disso se deve ao fato de que um dos meus primeiros empregos me deu a oportunidade de viajar para os Estados Unidos e trabalhar por algum tempo por lá. Após a experiência, eu achei que não fazia sentido fugir dos livros com essa língua, afinal de contas grande parte da literatura que consumimos no Brasil vem de lá. Não vou dizer que foi fácil, demorou bastante até eu ultrapassar a barreira da língua e do vocabulário e, na época, a comunidade booktuber não era tão forte. Hoje em dia eu consigo ler um livro em inglês sem problema algum, mesmo que eu não entenda 100% do que está escrito.

Mesmo assim, quase quatro anos após ter começado a gravar o podcast, ainda escuto vários relatos de pessoas que simplesmente não conseguem se habituar a ler livros em outras línguas porque a atividade exige um esforço mental muito maior do que elas estão dispostas a dispender. Foi só então que eu me dei conta de que já não sabia mais como era essa sensação: a de passar os olhos pelas páginas e só entender meia dúzia de palavras. Resolvi então me propor o seguinte desafio: ler o livro Acide Sulfurique da autora Amélie Nothomb, em sua língua original: o francês. Para quem não sabe, eu estou estudando francês atualmente e estou naquela linha limítrofe entre o básico e o intermediário. Eu acho que se me jogassem no meio da França, eu conseguiria não passar fome, mas provavelmente não conseguiria um emprego decente. Eu ainda não sei vários tempos verbais, meu vocabulário é ridiculamente restrito e eu ainda confundo coisas muito básicas (como as situações em que você deve usar en e y). Mesmo assim, eu não quis ficar na minha zona de conforto e, ao invés de só molhar meus pés nas águas rasas que são a leitura de comics, eu peguei um livro que estava na estante de “leituras fáceis” da escola onde estudo e mergulhei de cabeça no livro.

Acho que a dificuldade principal que eu tive foi com – adivinhe – tempos verbais e vocabulário. Uma coisa bem interessante que eu notei durante o processo de leitura é o quanto você precisa mudar o seu mindset para conseguir aproveitar a leitura de um livro escrito em uma linguagem que não é a sua nativa, e eu acho que é nisso que muita gente tropeça. Eu acho que muita gente tem a tendência de ler um livro em inglês (ou qualquer outra língua que não sua nativa) em “modo de aprendizagem“: focando muito nas palavras que você não conhece, parando em cada uma delas para procurar seu significado no dicionário. Isso não é necessariamente uma coisa ruim, mas ao mesmo tempo acaba tornando difícil aproveitar o plot em si. Você acaba se esquecendo de absorver as coisas que você sabe.

Uma coisa que eu mencionei no meu review do livro foi que eu não me senti no direito de dar uma nota a ele, o que não necessariamente significa que eu não tenha entendido nada da história. Eu acredito que consegui entender do que o livro se tratava, quem eram os personagens, qual foi o conflito central, qual foi a resolução e até mesmo quais foram os problemas que eu tive com ele e, na minha opinião, o que realmente importou foi isso. Talvez seja esta a chave para você se acostumar a ler um livro em outra língua: o que você entendeu da história? Quem foram os personagens? O que eles fizeram? Como eles são? Dá para entender isso pela maneira como eles interagem com os outros, pela maneira como eles reagem a coisas que acontecem com eles? Não se atenha a coisas do tipo “meu deus do céu, qual é a forma do futuro simples deste verbo irregular?” ou “nossa não sei o que significa essa palava, nunca a vi mais feia”. Enquanto isso é essencial para o seu aprendizado da língua, se a sua intenção é realmente apenas consumir a história, não é aí que deve estar seu foco. É claro, se a sua intenção é melhorar seu vocabulário, talvez valha a pena ficar parando o tempo todo para anotar palavras cujo significado você não saiba, e acho que aí até vale uma releitura do livro. Mas o importante é você saber trocar esse mindset: eu quero aprender ou eu quero aproveitar a história?

E você, caríssimo leitor, como está o seu progresso? Você tem lido livros em outras línguas ou prefere se ater a encadernados no bom e velho português brasileiro? Você lê para conhecer a história ou apenas para expandir seu vocabulário? Como você faz para ler livros que não foram escritos em sua língua materna? Deixem-nos seus comentários!

  • Isa Prospero

    Fala, Mel!
    Quando comecei a ler em inglês eu alternava entre “só quero entender a história” e “vou me dedicar a isso de verdade” (quando li ASOIAF eu ia procurando tudo que não conhecia pq sabia que a série ia ser longa e eu ia utilizar aquele vocabulário – o que me foi bem útil para ler outras fantasias tb, aprendi bastante, mas eu me dei a esse trabalho poucas vezes). Acho que o segredo pra se acostumar a ler em outra língua é abandonar a meta da compreensão 100% e encontrar um livro que te faça querer virar as páginas (e que seja de um nível que vc não sinta estar perdendo demais). Também descobri que se eu ler no transporte público (onde não dá pra ficar procurando coisas no dicionário e anotando) eu sigo em frente com a leitura melhor! Porque ou leio ou não tenho o que fazer na viagem, rs.

Copyright Agentes do L.I.V.R.O. © 2014-2017