Ler vs. resenhar

18 de janeiro de 2017

(Disclaimer: a imagem do post veio daqui!)

Eu não vou negar que ando inspirada para fazer posts baseados em vídeos no YouTube ultimamente, mas acho que vocês hão de concordar comigo que é difícil não fazer isso quando tem tanta gente linda e inteligente fazendo vídeos sobre assuntos interessantes, sobretudo quando eles estão diretamente relacionados ao universo literário.

E hoje eu quero falar um pouco sobre o vídeo da Marisa, do canal littlespider9. Ela pode não ser uma booktuber super famosa, mas eu adoro os vídeos dela, bem como as recomendações de leitura. Os vídeos dela costumam ter um foco um pouco mais voltado à literatura asiática, e isso é algo relativamente difícil de se encontrar na comunidade.

Com relação ao tema da discussão de hoje, a Marisa menciona no vídeo que ela escutou relatos de uma pessoa que admite que não lê o livro inteiro antes de resenhá-lo, a menos que ela seja completamente sugada para dentro da história: dito indivíduo lê o começo do livro, lê o final e faz um skim-reading de todo o resto (eu não sei se existe uma expressão em português que seja uma boa tradução para isso, mas seria algo como “ler por cima”. Sabe quando você não tá afim de ler alguma coisa – geralmente textos acadêmicos – e dá uma folheada no livro, apenas passando os olhos pelas páginas? Então, isso é skim-reading). Ela ficou horrorizada porque, de fato, é muito difícil falar de algum livro com propriedade quando você não o leu de fato. E é daí que eu quero iniciar nossa discussão: quanto de um livro você lê antes de fazer uma resenha? Ou quanto de um livro deve ser lido antes que uma resenha digna de confiança possa ser feita?

Antes de mais nada, tenho que tirar um obstáculo do nosso caminho: para todos os livros sobre os quais falamos no podcast (ou sobre o qual eu escrevo aqui no blog), nós os lemos de cabo a rabo (ou, como a Marisa mencionou, “cover to cover”). Ocasionalmente você vai nos escutar dando alguma informação incorreta com relação a determinados detalhes da história, mas quando isso acontecer, é possivelmente porque deixamos de prestar atenção em algum detalhe, e quando somos corrigidos por vocês, fazemos questão de ressaltar o que é o correto sobre determinado livro. Dito isso, de uma coisa vocês podem ter certeza: eu e o Thiago jamais faremos uma resenha sobre um livro que não tenhamos concluído. Quando abandonamos alguma leitura, deixamos este fato bem claro e ainda damos os motivos pelos quais o fizemos. Isso é, inclusive, uma das razões pelas quais o nosso podcast é quinzenal, e não semanal, como era bem no começo.

Nós não somos pagos para fazermos o podcast, tampouco recebemos cortesias das editoras, então temos em nossa vantagem a possibilidade de ler livros que nós mesmos escolhemos com calma, falar bastante sobre eles, ocasionalmente até mesmo dedicar um capítulo inteiro para discutir diversos pontos a respeito deles e eu acho que isso é o mínimo que exigimos de nós mesmos. Conseqüentemente, isso acabou se tornando algo que eu espero de pessoas que fazem resenhas de livros. Eu acredito que todos os booktubers que sigo lêem o livro inteiro antes de se dignar a falar sobre a obra e, na minha opinião, eu acho que isso é o certo a se fazer. Nem sempre ler o começo e o final do livro e só passar os olhos por cima de todo o resto é o suficiente para se fazer uma resenha confiável e, não só isso, eu acho que isso tira o propósito do hábito de leitura. É como tirar o hamburger e comer só o pão com maionese: o gosto remanescente do hamburger pode ter ficado no pão, mas você ainda está perdendo a melhor parte do sanduíche. Para muitos autores e eu não vou dizer que é o Brandon Sanderson, a graça do livro está justamente naquele “recheio do sanduíche”. O grosso do desenvolvimento de personagens e da história está justamente no decorrer de toda a história. Alguns autores fazem com que o seu livro tenha o mesmo andamento de um concerto, e eu sempre gosto de usar o Concerto nº9 em A Menor do Charles de Beriot como exemplo: ele começa de um jeito e termina de um jeito completamente diferente, mas é só escutando a coisa toda que você entende como ele chegou naquele ponto.

Eu não sou ingênua, eu sei que algumas pessoas são pagas para fazer resenhas e, muitas vezes, elas precisam fazer uma quantidade muito grande de resenhas em um espaço muito curto de tempo. Por motivos de VIDA, elas são obrigadas a fazer o tal do skim-reading e eu não vou julgá-las por isso. Afinal de contas, quem sou eu para julgar as maneiras como uma pessoa obtém seu ganha-pão? Ainda assim, não posso deixar de questionar a validade de uma resenha baseada em uma leitura superficial de um livro. O que eu posso dizer é o seguinte: escrever livros é trabalhoso. Por mais que muita gente se disponha a escrever e nem todas as obras sejam grandiosas, por trás de cada livro existe um escritor que perdeu algumas horas de sono e várias tardes ensolaradas espremendo sua alma no papel para trazer uma história ao mundo. Eu acho justo que se gaste um pouco de tempo saboreando o que o autor colocou naquelas páginas e, se você gostou da história, até mesmo analisá-la a fundo. Ou, se você não gostar da história, simplesmente abrir mão dela.

Enfim, o que vocês acham? Resenhas de livros são válidas mesmo se a pessoa não leu o livro inteiro? Ou será que, para analisar adequadamente um livro, o mesmo deve ser lido de cabo a rabo e destrinchado nos mínimos detalhes? Deixem-nos seus comentários!

  • Celly Nascimento

    Oi, Melanie!
    Tenho um blog já ha dois anos, o Me Livrando. Sua postagem me fez pensar muito.
    Sabe, eu vivo afirmando e reforçando que parcerias com editoras não são tudo na vida. Que muitas vezes firmar essa parceria pode prejudicar a gente não apenas enquanto leitor, mas como pessoa também. Afinal, são muitas as pressões que vêm de fora e de nós mesmos: em 2016 tive um período bem trevoso em que eu simplesmente não consegui ler nada, tanto era o volume de livros que precisava ler em virtude das parcerias.
    Confesso a você que já tive vontade de fazer a skim-reading. O problema é o quanto eu me sentiria culpada depois, sabe? Em passar essa resenha “falsa” para os leitores. Porque a meu ver, resenhar um livro que você não leu totalmente é ser um tanto falso com quem está ali acompanhando e apreciando seu trablho.

    De todo o texto, definitivamente o que mais me chamou atenção foi a liberdade que vocês possuem para ler e resenhar o que estiverem afim, ao passo que fechei parceria com muitas editoras e me sinto de “mãos atadas”. Acho que vou conversar com algumas e fechar com o resto. Realmente tira toda a graça de ler e, por conseguinte, de resenhar.

    Obrigada pela luz!

    Celly,
    http://www.melivrando.com/

    • Olá, Celly!

      Agora que você mencionou, eu tenho visto com uma freqüência cada vez maior Booktubers que decidem cancelar ou não fazer parceria justamente porque a pressão para fazer resenhas acaba suprimindo sua vontade de ler. De certa forma, é irônico, porque também existe uma quantidade grande de pessoas que quer virar booktuber/podcaster justamente por causa das parcerias (provavelmente ignorando que as responsabilidades e prazos vêm juntamente com os brindes bacanas). Novamente, quem sou eu para julgar as pessoas? Muita gente faz isso porque é, efetivamente, um trabalho, mas para as pessoas que têm por leitura um hobby, não vale a pena o sacrifício.

      No mais, acho que todo mundo acaba se deixando levar pela empolgação inicial da possibilidade de ganhar muitos livros e coisas legais, sobretudo em um país em que livros são praticamente um artigo de luxo. Espero que, em meio às suas pilhas gigantes de livros a serem lidos, você consiga fazer uma pausa, respirar fundo e lembrar por que você começou a fazer tudo isso! Boa leitura!

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