Preconceitos literários e julgando leitores

7 de dezembro de 2016

(Disclaimer: a imagem do post veio daqui!)

Antes que vocês possam se assustar com o título deste post, não, não vou falar sobre exatamente a mesma coisa que já falamos no podcast sobre Preconceitos Inconscientes (embora o assunto do post tenha muito a ver com o que falamos nesse episódio). Neste post, vou falar sobre preconceitos que temos com relação ao mundo literário e a maneira como julgamos outros leitores. O que me deu vontade de conversar a respeito foi o vídeo que a Mayra do canal All About That Book gravou há um tempão, em que ela menciona que ela mesma tem vários preconceitos com relação a alguns aspectos do mundo literário, embora ela tenha plena consciência disso e esteja tentando desconstruir os próprios preconceitos.

Primeiro, quero falar um pouco sobre o lance de julgar os outros leitores pelos livros que eles lêem. Vocês que acompanham nosso podcast já devem estar cansados de saber que somos da opinião de que um leitor jamais deve ser julgado pelos livros que lê e estamos constantemente reforçando essa idéia: cada um é livre para ler o que quiser, escolher o gênero com o qual ele se sente mais confortável e levando o tempo que precisar levar para concluir a leitura. Isso é uma constante e nós não vamos mudar nosso posicionamento com relação a isso: se você só lê biografias, ótimo! Se você só lê livros Jovem Adulto, que bom! Se você só lê thriller/romance/fantasia/erótica/ação/horror/suspense, cara, continue. Sério mesmo, continue lendo o que você gosta de ler, independente do que os outros digam ou deixem de dizer. Novamente: o livro que você lê não faz de você melhor ou pior do que os outros, independente da sua bagagem literária. Eu já conheci pessoas que lêem Bukowski e são completamente incapazes de fazer uma discussão coerente com relação ao que elas leram, como também conheci pessoas que lêem E.L. James e elaboram discussões ótimas sobre moralidade, situação sócio-política da mulher no mercado de trabalho e diversos assuntos relacionados a um livro que é considerado a escória do mundo literário. É importante ler uma gama variada de autores? Sem sombra de dúvida! Mas quando estamos falando de literatura não só como método de adquirir informações, mas também como um meio de se divertir, eu acho importante que se escolha algo que você esteja com vontade de ler. E quando seu tempo livre é escasso, acho completamente justo escolher ler um livro da Stephenie Meyer no lugar de um Shakespeare. Não vejo problema algum em ler algo da Veronica Roth ao invés de pegar um livro do Machado de Assis. Compreendo perfeitamente quem prefere ler Stephen King a ler Ernest Hemingway.

Outro ponto bem interessante levantado pela Mayra é quando a pessoa diz que o melhor livro da vida dela é, por exemplo, Crepúsculo (eu sei que muita gente vai pegar no nosso pé porque a gente sempre usa Crepúsculo como exemplo, mas eu juro que não é preconceito da minha parte) e quem tem uma bagagem literária maior tende a torcer o nariz para ela, porque “onde já se viu, Crepúsculo é terrível, é muito mal escrito, é um livro ruim, leia algo que preste”. Novamente, reforço outra coisa que eu e o Thiago SEMPRE dizemos no podcast: não é só porque você não gosta de um livro que as outras pessoas não têm o direito de gostar dele. Cada um tem o direito de ter sua própria opinião, cada um tem o direito de gostar do que quiser. Acho que quase todo livro tem seu mérito e, a menos que ele incite ódio (desculpa, galera, mas citando a Lady Sybilla, ódio não é opinião), ele vale a pena ser lido por algum motivo. Por mais que sua opinão possa ser parecida com a de outras pessoas, cada livro ressoa com o leitor de maneira diferente. Por mais que a minha opinião sobre a série The Stormlight Archive seja parecida com o Thiago, o livro me proporcionou uma experiência diferente à experiência que foi proporcionada a ele. Por mais que a gente concorde com muitas coisas sobre Warbreaker, eu gostei de algo diferente que ele gostou no livro. Para grande parte dos livros que discutimos no podcast, geralmente fica bem claro que ele é fã da construção do mundo e eu sou fã da desconstrução do personagem, e isso é o que nos motivou a fazer o podcast: o que nós podemos conversar sobre o livro que vai acrescentar alguma coisa a vocês? O que vai trazer discussões interessantes? Se tivéssemos exatamente a mesma opinião, será que ainda teríamos tanta coisa sobre a qual falar no podcast? Se nós dois lêssemos exatamente os mesmos livros que todo mundo já leu, será que a gente ainda ia se diferenciar de tantos outros podcasts já existentes? E se nós dois lêssemos sempre os mesmos livros? Acho que se não fose pelas nossas diferenças de opiniões e gostos, os Agentes do L.I.V.R.O. mal existiriam!

Falando agora sobre preconceitos de maneira geral, eu não vou negar que eu tenho preconceitos com relação a diversos aspectos relacionados à leitura. Se eu leio a sinopse de um livro e ela não me interessou, eu simplesmente não vou ler, e isso tem mais a ver com a maneira como eu gasto meu tempo livre do que qualquer outra coisa. Outra idéia que eu sempre, sempre reforço tanto no podcast quanto aqui no blog é exatamente isso: eu tenho pouco tempo livre. Eu trabalho, eu estudo, eu tenho uma família para cuidar, eu tenho tarefas de casa para fazer. Eu realmente vou gastar meu pouco tempo livre disponível com a leitura de algo que eu não considero prazeroso só porque todo mundo está falando do livro? O meu tempo livre deve ser gasto com coisas que eu gosto de fazer, e não há julgamento alheio que me faça mudar de idéia. “Ah, Melanie, mas você pode estar perdendo a oportunidade de ler um livro muito legal!” Bom, eu já perdi várias oportunidades de algo bom para conseguir mais tarde algo melhor. Às vezes, algo igual. Outras vezes, algo pior. Parafraseando o Thiago, “o nome disso é VIDA“. Não se pode acertar sempre, e isso é perfeitamente aceitável.

Tem algum gênero que eu não leia? Hm… difícil dizer. Eu sempre digo que não gosto de livros de romance e um dos meus livros preferidos é A Vida do Livreiro A.J. Fikry, que é um romance. Eu digo que não gosto de biografias e este ano escutei o audiobook The Only Pirate at the Party da Lindsey Stirling duas vezes. Eu digo que não gosto de ficção científica e este ano li The Old Man’s War e Perfect State, que são basicamente ficções científicas. É muito difícil dizer “eu não gosto de gênero X ou gênero Y de livro” porque sempre vai existir uma exceção. Eu tinha dito que não era muito fã de livros de tribunal até escutar o audiodrama de Twelve Angry Men e adorar a história.

E quanto a vocês? Quais são seus preconceitos com relação a algum gênero de livro? Você está tentando desconstruir seus preconceitos de alguma maneira? Deixem-nos seus comentários!

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