Verdade e ambigüidade

3 de agosto de 2016

(Disclaimer: a imagem do post veio daqui!)

Recentemente vi um vídeo interessante de um booktuber que sigo: ele discute um pouco a respeito de uma coisa que eu e o Thiago falamos em praticamente tudo que é episódio do podcast: as áreas “cinzas” de uma história. Quando somos mais jovens, existe uma distinção muito clara entre “o bem” e “o mal” em tudo que é mídia, sejam livros, jogos, filmes ou o que quer que seja. Os mocinhos sempre são pessoas que têm todas as qualidades desejáveis a alguém: são belos, fortes, bondosos, humildes, extremamente altruístas e só fazem coisas boas. Por outro lado, os vilões são sempre pessoas extremamente feias, estão sempre querendo fazer algo ruim sem motivo algum, como raptar a mocinha indefesa, tacar fogo em cidadezinhas pacatas, destruir o mundo e por aí vai. Corta para alguns anos depois e agora você é um adulto tendo que lidar com diversos outros problemas que vão muito além de tudo aquilo que te assombrava em sua tenra idade. Agora os dragões que assolavam o reino são substituídas por pilhas e mais pilhas de contas para pagar. O mago maquiavélico não dá mais medo que o primeiro assaltante com uma arma na mão que você corre o risco de encontrar em cada esquina. E aquele homem que roubou um carro e acabou matando uma pessoa? Talvez ele não seja tão vilão assim.

Você já parou para traçar na sua vida uma linha que determina quando as decisões começaram a ficar muito difíceis? Quando foi que escolher entre um pirulito de morango e um pirulito de uva começou a se tornar menos importante que decidir se você devia fazer um curso extra-curricular de línguas ou se dedicar aos esportes?

E quando você precisou deixar de pensar se você deveria desligar o computador mais cedo para ler antes de dormir ou responder àquela pessoa maldita que te ofendeu pessoalmente no Facebook e passou a ter que decidir se devia cursar Psicologia ou Biologia na faculdade?

Acho que conforme você vai envelhecendo e adquirindo mais experiência de vida, passando por mais situações difíceis e tendo que tomar decisões com conseqüências muito mais graves e/ou duradouras, aquilo que você vivencia acaba influenciando no seu gosto pela mídia que você consome. Enquanto muita gente busca escapar da crueldade do mundo real com histórias mais simples e leves, livros jovem-adulto e romances fofinhos, outras pessoas acabam adquirindo um certo fascínio por esse novo mundo estranho e cheio de entretons. Por quê? Talvez porque ver outras pessoas, sejam elas fictícias ou não, passando pelo mesmo tipo de situação cause uma certa familiaridade? Talvez sintamos mais empatia por quem está passando ou passou pelas mesmas dificuldades que nós? Ou será apenas por curiosidade mórbida, aquela vontade de ver “o que teria acontecido se ela tivesse feito uma escolha diferente”?

Questões morais são um dos nossos assuntos preferidos, porque elas sempre geram discussões interessantes e por vezes bastante acaloradas. Eu acho muito interessante me deparar com situações retratadas em livros para as quais não existe uma resposta certa ou errada. Esses tipos de questões nos forçam a sair da nossa zona de conforto e tentar enxergar o mesmo problema sob pontos de vista diferentes, e para cada decisão, existe uma série de conseqüências decorrentes dela. Depois de ter me aventurado a escrever um esboço de uma pequena história, eu comecei a entender as dificuldades que um autor tem em criar esse tipo de ocasião. Quando somos mais novos, as decisões geralmente só têm um possível final: o final feliz. Passamos por apertos, conhecemos pessoas pelo nosso caminho, perdemos várias outras e conforme vamos amadurecendo em todos os aspectos, acabamos percebendo que a vida não é uma via de mão única: há muitas bifurcações escondidas em estradas que podem não ter sido pavimentadas, cada uma nos levando a um destino diferente.

O que vocês acham? Quando o mundo está ficando muito obscuro, vocês preferem escapar para o conforto de um livro simples com um final feliz garantido? Ou será que o perigo do desconhecido é algo mais atraente? Deixem-nos seus comentários!

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