Discussão: Trilogia Captive Prince

11 de maio de 2016

(A imagem do post veio daqui!)

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Eu comentei no episódio 51 na sessão dO que estamos querendo ler que a trilogia Captive Prince, da autora C.S. Pacat, estava na minha lista e que eu já tinha lido o primeiro livro da série. Pois bem, caríssimos, eu concluí a leitura do último livro ainda esta semana. Infelizmente, não acho que esse seja o tipo de livro que eu recomendaria ao Thiago, então provavelmente não faremos um episódio a respeito dessa trilogia. Mas ainda assim, quando li as últimas linhas do livro Kings Rising, ficou no meu coração aquela vontadinha de discutir várias coisas a respeito do livro. Resolvi, então, escrever um post a respeito.

Antes de mais nada, um disclaimer: eu vou comentar neste post a respeito da trilogia inteira. Ou seja, este post vai conter spoilers. Se você não leu e pretende ler os livros, sugiro que você não continue a ler o post!

Adicionalmente, os três livros contêm cenas de sexo explícito, então se você não gosta muito de livros que tenham esse tipo de cena, fica o aviso!

A premissa dos livros

O primeiro livro nos apresenta a Damianos, o príncipe destinado a se tornar o monarca do reino de Akielos. Após a morte de seu pai, o irmão de Damianos o trai e toma o trono para si, transformando Damianos em escravo e enviando-o para servir o príncipe do reino de Vere, que rivalizava Akielos por várias gerações. Ironicamente, Damen (como ele fica conhecido após se tornar escravo) tinha matado o irmão do príncipe de Vere durante a guerra.

Laurent, o príncipe de Vere é uma pessoa extremamente fria, amarga e calculista. Você nunca consegue saber o que ele realmente está pensando ou quais são as suas verdadeiras intenções. Aos olhos do Regente de Vere, ele não é muito mais que um rapaz mimado que cresceu com todas as regalias de um garoto nobre. É claro que, conforme você lê os livros, você percebe que as tramas vão muito mais além do rostinho bonito de Laurent.

Livro 1: O Príncipe Cativo

4 estrelas de 5

Falando separadamente dos livros, eu mencionei no podcast que tive diversos problemas com a leitura do primeiro livro, Captive Prince. Enquanto eu achei que a construção do mundo e dos personagens foi bem interessante, uma coisa que me incomodou muito foi o próprio sistema de escravidão. Eu podia dizer que “existiu uma espécie de glorificação da escravidão e, sobretudo, do estupro”, mas ao mesmo tempo eu me pergunto quanto daquilo que foi retratado no livro foi efetivamente parte da construção daquele mundo. O “sistema” de escravidão é algo comum às duas nações, e uma coisa interessante com relação a isso é justamente o fato do próprio Damen ser colocado em uma situação em que ele é o escravo.

Acho que a escravidão é um dos pontos que eu acho mais problemáticos de discutir, porque ela pode ser resumida a “submissão”, que é praticamente o foco da trilogia, e não a questão de “opressão e injustiça”. Talvez dentro do contexto do livro ele seja algo completamente diferente da noção que nós temos de escravidão. Os escravos do livro tendem muito mais a objetos sexuais do que qualquer outra coisa, e a história dá a entender que muitas das coisas que são feitas com eles são efetivamente consentidas. Ainda assim, é um aspecto constante da história que por certas vezes me incomodou. A cena da arena para mim foi algo quase intragável… e não muito convincente. Como diabos o Damen, estando drogado, conseguiu vencer tão facilmente o Govart?

Os personagens são bem interessantes, e desde o começo eu gostei muito do contraste de personalidades entre o Laurent e o Damen. O Damen pode não ser um personagem que chame particularmente a atenção, mas eu gosto das mudanças sutis de personalidade dele e de como ele vai vencendo os próprios preconceitos que ele tinha com o povo de Vere e de como os objetivos dele se adaptam com o andamento da história. Já o Laurent foi um personagem que eu achei problemático no primeiro livro, mas que eu passei a aceitar um pouco mais facilmente nos livros seguintes. Durante a trilogia inteira ele soa como a personificação da expressão “deus ex machina”: ele sempre sabe tudo, sempre planejou e previu tudo e parece estar sempre 20 passos à frente de todos os outros. O fato de que não vemos a história do ponto de vista dele contribui para essa impressão, e foi algo que eu precisei me convencer constantemente de que “isso era uma das regras do jogo”. Ao mesmo tempo que os personagens não pareciam muito humanos, foi legal ver como todos eles tinham um lado bom e um lado horrível. O Damen é, a princípio, o nosso herói incorruptível, mas será que dá para falar isso de um cara que mata o inimigo sem escrúpulos e, se os papéis tivessem sido invertidos, provavelmente faria com o escravo dele tudo o que foi feito com ele? O Laurent é aquela pessoa que parece não ter sentimentos e que, por vários momentos, faz coisas absurdamente condenáveis, mas existe um “lado bom” nas coisas que ele faz. Como você fica sabendo mais tarde, ele é uma pessoa que não tolera escravidão. Ele é verdadeiramente bom com seus seguidores, e após um certo momento do livro, ele até mesmo protege o Damen. Mas dá para chamar de “boa” uma pessoa que açoita o escravo pelo sentimento de vingança?

Enquanto eu gostei dos personagens Laurent e Damen, deu para sentir que o estilo de escrita careceu de um pouco mais de polimento. A autora conta muito mais do que mostra e por diversas vezes a prosa do livro faz com que ele pareça muito mais uma fanfic do que um livro propriamente dito. Isso felizmente muda com o tempo, e quando eu penso no terceiro livro, eu percebo como o estilo de escrita dela melhorou.

Uma coisa que eu achei legal do primeiro livro ao último foram os diálogos. Praticamente todos os diálogos são divertidos de se acompanhar, sobretudo quando a história chega ao ponto em que o Damen e o Laurent passam a “aceitar” a presença um do outro. Isso sem falar que essas conversas mostraram muito bem a personalidade dos dois, a própria evolução do relacionamento e deu uma voz muito característica a ambos. Acho que foram justamente esses diálogos que me fizeram querer continuar a ler os outros livros e saber o que ia acontecer depois.

Livro 2: A Aposta do Príncipe

3 estrelas de 5

Prince’s Gambit foi um livro um pouco mais lento que o primeiro. Não porque não aconteça nada, mas porque o progresso das coisas que o Laurent e o Damen estão fazendo é muito mais lento, e a autora não tem escrúpulos em detalhar todo o processo. Eu até me arrisco a dizer que esse livro é o mais político dos três. O próprio relacionamento entre os dois príncipes entra em um estado bem transitório aqui, e enquanto o Laurent não parece mudar muito (embora ele mude), o mesmo não pode ser dito do Damen.

Ao mesmo tempo, a quantidade de intriga políticas começa a ficar bem cimentada neste livro. Você começa a perceber que existe muito mais na rixa entre o Laurent e o tio dele do que parecia haver inicialmente.  Você também passa a ver como o príncipe de Vere é bom com relações diplomáticas, o que é um contraponto ótimo com o Damianos, que costuma apelar para a força bruta (porque sempre que ele tenta fazer parte do jogo político, ele estraga tudo de maneira épica).

Depois de ler o terceiro livro, eu comecei a lembrar de algumas coisas dos livros 1 e 2 e notei como foram interessantes os foreshadows que a autora estava tentando criar. Alguns foram muito bem feitos (sobretudo no quesito de alianças), outros podiam ter sido bem melhores (o foreshadowing do Paschal, que é revelado no final do terceiro livro, podia ter sido melhor distribuído ao invés de se concentrar na cena do julgamento). Gostei da maneira como ela utilizou alguns elementos do primeiro livro (sim, refiro-me ao brinco do Nicaise) e como ela não mantém a história acontecendo em um único lugar.

O que eu não gostei desse livro: em vários momentos, eu me perguntei o que diabos aconteceu com o estilo de escrita da autora. Alguns trechos ficaram mal escritos a um ponto que era até mesmo difícil entender o que diabos ela estava querendo dizer. Se você tentar ler o livro em voz alta, esse problema fica bem claro: a escolha de palavras e estruturação de sentenças simplesmente não ficou bom. Esse foi o motivo principal pelo qual eu não dei uma nota maior para o livro.

Livro 3: A Ascensão dos Reis 

4 estrelas de 5

Kings Rising fechou a trilogia de um jeito bem bacana, embora vários momentos do livro tenham feito com que eu rangesse meus dentes. Enquanto a prosa da C.S. Pacat melhorou bastante, ainda houve alguns trechos que podiam ter sido refraseados de maneira bem melhor (pra quem me acompanha no Twitter, teve um parágrafo em que ela usou “Laurent” seis vezes!). Eu também não posso dizer que fiquei completamente satisfeita com a maneira como se deu o conflito final. Eu senti que a cena de julgamento teve um desfecho bem deus ex machina. A aparição do Paschal explicando tudo não foi legal para mim, visto que ele teve muito tempo de cena no segundo livro e todas as oportunidades possíveis para dar as informações que ele apresentou aqui. O lance da Loyse também não me convenceu. Que o Guion não ia ajudar eu já imaginava, nunca confiei naquele cara. Mas ao mesmo tempo eu não lembro do Laurent ter conversado muito com a Loyse, e o julgamento dá a entender que ele tinha planejado tudo aquilo. Como isso? Será que eu perdi alguma dica de que o Laurent e a Loyse eram amiguinhos?

A parte da Jokaste também não me convenceu muito. Eu até posso concordar com os motivos que a levaram a fazer tudo o que ela fez, mas aquele bilhete que ela deixou na carruagem quando o Laurent a deixou fugir foi MUITO conveniente. Novamente, será que eu esqueci alguma coisa? Será que eu acidentalmente perdi a referência ao bilhete enquanto eu estava perdida na minha ânsia para saber o que acontecia em seguida?

Por outro lado, eu gostei DEMAIS da parte em que o relacionamento entre o Laurent e o Damen é “oficializado” como um romance, sobretudo porque no começo do livro ele é algo extremamente agonizante: você sabe que eles não podem ficar juntos por diversos motivos, mas ao mesmo tempo você torce para que eles superem essa barreira e fiquem juntos. O momento em que o Laurent derruba a parede de gelo com que ele se cerca é fantástico; quando você se habitua ao jeitão do príncipe de Vere, você meio que passa a enxergá-lo exatamente da mesma maneira que o Damen o vê e passa a entender as sutilezas das ações dele. Inclusive, uma coisa que eu mencionei no Twitter e volto a mencionar aqui é que no primeiro livro você se pergunta “como diabos as pessoas conseguem shippar esses dois?? Eles são horríveis um com o outro!”. No segundo você diz que “até que os dois são bonitinhos juntos” e no terceiro você está praticamente gritando ao universo para que os dois fiquem juntos.

Depois de toda a jornada, eu diria que o final foi bastante satisfatório para mim. Não sei quanto disso fui eu aprendendo a aceitar a história, os personagens e o próprio estilo de escrita da C.S. Pacat, e quanto disso foi a história ser envolvente de fato. Só sei de uma coisa: eu já estou com saudades dos personagens e do universo de Captive Prince.

 

E você? Já leu a trilogia de C.S. Pacat? Concorda com o que eu disse? Discorda? Deixe-nos seus comentários!

  • Emmanuelle

    Adorei sua análise, vou ler 🙂

  • tomara que saia no Brasil algum dia

  • ava

    Olá! Concordo com os cometários sobre o livro 1 e também me incomodou muito toda a situação da escravidão sexual. Depois que terminei a leitura não tive vontade de ver o seguinte, mas ao procurar novas estórias ficava sempre esbarrando no segundo livro e acabei me rendendo pela sinopse. Conclusão: Depois de ler o 2 aguardei ansiosamente o 3 e acabei apaixonada pela trilogia e li novamente o 1. Li em espanhol e amei mais ainda.

  • ava

    O primeiro livro homoerótico que li foi por curiosidade porque gostei da sinopse e só encontrei em espanhol. Levei um coro mas acabei pesquisando o significado de algumas palavras e entendendo quase tudo. Me apaixonei pelo idioma que torna a estória mais romântica e passei a ler todos os livros e mangás e assistir animes (legendados) em espanhol. O primeiro livro era El fuego del diablo e o anime Junjou Romântica. Me tornei fanática por leitura homoerótica. Minhas séries preferidas: Trilogia Fé, Amor e Lealdade (Tere Michaels) e as de fantasia Cambiaformas Perdidos e Manada Brack..

  • ava

    Indicação: Si no es amor – Tamara Allen e Destino:: El Cielo – Aleksandr Voinov. Duas estórias bonitas e sensíveis.

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