Discussão: The Only Pirate at the Party

17 de fevereiro de 2016

Eu comentei a respeito deste livro no episódio 47, que saiu dia 8 de Fevereiro, na parte do podcast em que comentamos sobre os livros que lemos durante as semanas. Falei basicamente do que eu gostei no livro e dos aspectos principais, e também prometi uma discussão a respeito de um dos capítulos. Acho que já está mais do que na hora de escrever a respeito disso.

Deixo aqui um pequeno aviso: este post propõe a discussão de um trecho bem específico do livro. Eu não sei quanto disso pode ser considerado um spoiler porque… bem, quanto de uma autobiografia pode ser considerado spoiler? Acho que quem não busca muita informação a respeito da pessoa sobre a qual o livro se trata pode considerar isso spoiler, então… spoiler alert!

Outra coisa: eu não sou violinista profissional e nunca fiz aula de música oficialmente em conservatório ou qualquer coisa do gênero. Meu conhecimento no assunto é MUITO básico e mal arranha a superfície da iniciação musical. Peço desculpas a eventuais erros de definição e nomenclatura e peço encarecidamente que se vocês tiverem correções a fazer, avisem-me que eu arrumo o post!

Depois que eu escutei esse audiobook, fiquei digerindo algumas das coisas que a Lindsey Stirling falou a respeito de fama, networking com pessoas famosas e vários aspectos do showbusiness que a mídia não mostra. Como mencionei no podcast, eu a acompanho no YouTube já faz um bom tempo e peguei justamente aquela época meio transitória da carreira dela, em que a qualidade dos vídeos dela estava aumentando visivelmente de lançamento para lançamento. No livro ela sempre ressalta o fato de ser constantemente lembrada das próprias origens, e essas experiências pelas quais ela passou a ajudam a manter uma postura mais humilde.

Um capítulo do livro que me chamou bastante a atenção foi o que ela menciona a vez em que ela foi chamada para tocar violino em um show do Andrea Bocelli. E é aqui que começa o foco da nossa discussão.
No capítulo em questão, Lindsey diz que passou por momentos bastante complicados, em que ficou bem clara a razão pela qual ela teve tanto trabalho para conseguir fazer com que suas obras fossem reconhecido pelas mundo: o estilo das músicas que ela produz é diferente.

Eu não tenho autoridade para dizer muito a respeito, visto que não trabalho na área de música e meu conhecimento com relação a violino não passa do nível básico (conhecedores, encarem da seguinte maneira: eu sei qual é a diferença entre um violino e uma viola, mas sou uma daquelas pessoas que parou antes de chegar no vibrato e mal sabe fazer mudança da primeira para a terceira posição – segunda posição, só na sorte!), mas uma coisa é bem clara para qualquer um: ela não é nenhum virtuoso como o David Garrett ou o Joshua Bell ou a Takako Nishizaki. Quem assistir a um show da Lindsey vai notar que, não raramente, ela peca na afinação.

Tá, Melanie, se você acha tão ruim, vai lá você tentar dançar e tocar violino ao mesmo tempo!
Notem: eu não estou fazendo críticas a ela como pessoa, tampouco às habilidades cognitivas dela. A própria Lindsey fala no livro e em diversas entrevistas que ela tem consciência de que nem sempre ela toca as músicas perfeitamente. Eu também estou ciente da dificuldade porque, como já citei no podcast, só o fato de sorrir enquanto se toca violino já parece algo que exige muito da sua coordenação motora (vai por mim, é difícil mesmo).

A questão é a seguinte: neste ponto do livro, ela comenta como ela se sentiu mal durante os ensaios porque – adivinha? O estilo de música do Andrea Bocelli e o estilo de música pelo qual ela se consagrou são bastante distintos. O Bocelli segue um estilo bem mais clássico, prezando fortemente pela precisão. O da Stirling é frenético. Óbvio, afinação é importante, mas um dos grandes diferenciais dela é que ela toca violino E dança ao mesmo tempo. As músicas dela têm bastante trinado, sautillé freqüente. Elas foram feitas para serem tocadas rapidamente, e essa freqüência de acidentes de arco beneficia o fato de que a Lindsey praticamente não fica parada nos shows dela.
O que me fez pensar nesse capítulo foi a atitude dos outros músicos da camerata (e até mesmo do próprio Andrea Bocelli) com relação à participação da Lindsey no show. Até onde vai a sua parcela de culpa nas coisas pelas quais você está sofrendo?

Na minha opinião (e notem que eu estou escrevendo este post tendo como base apenas o ponto de vista da Lindsey Stirling, pode ser que a história tenha acontecido de uma forma bem diferente do que ela relatou), a atitude dos outros músicos foi, de fato, bastante arrogante. Da maneira como ela relatou a história, eles riam e se irritavam a cada vez que ela cometia erros e, quando ela finalmente conseguiu passar por uma parte do ensaio errando o menos possível, ela conseguiu, a duras penas, receber um “Está melhor.” do Bocelli.
Quando terminei de escutar esse capítulo, eu fiquei pensando na situação por um bocado de tempo. Ao mesmo tempo que a atitude dos artistas foi bastante condenável, também não acho que era obrigação deles passar a mão na cabeça dela e dizer “tudo bem, o tio ajuda”. Cada erro que ela cometia era um atraso e um reforço da questão “podíamos ter colocado alguém mais capaz no lugar dela”.

Novamente, reforço a seguinte idéia: eu não estou dizendo que a Lindsey Stirling é incompetente, tampouco estou fazendo críticas à pessoa dela.

Dito isso, ficaram as questões: será que a Lindsey era quem deveria ter desistido de sua participação no show ou será que foram os produtores que erraram ao convidá-la para participar do show sem entender como funciona a artista?
Acho que, independente da área, é muito fácil se render à necessidade de “etiquetar” as pessoas. Uma coisa que eu e o Thiago sempre tentamos ressaltar em todo santo podcast é justamente o fato de que todas as pessoas são diferentes. A área de música não é exceção: o fato de Lindsey Stirling ser uma violinista, sob o ponto de vista dos produtores, automaticamente a enquadrou como uma pessoa que só toca música clássica e, se ela está fazendo sucesso na forma de mídia mais popular que é o YouTube, é porque ela está no caminho do virtuosismo. Enquanto eu não tenho como saber se o caminho do virtuosismo é um objetivo dela, ao mesmo tempo eu simplesmente não posso dizer que ela não tem talento. É só escutar as músicas dela para perceber qual é o foco dela. São pouquíssimas as músicas escritas por ela que eu não gosto (inclusive, para quem ainda não escutou nenhuma, recomendo fortemente Roundtable Rival – só para não ser a mesma música que recomendei no podcast). Essa menina tem talento!

Enfim, esse post já ficou bem mais longo do que eu gostaria, mas acho que era basicamente isso que eu queria colocar em discussão aqui: como todos esses inconvenientes podiam ter sido evitados? Será que a produtora errou ao convidar uma musicista com um foco completamente diferente da estrela do show? Será que talvez os outros músicos devessem ter uma atitude um pouco menos elitista? Ou será que a própria Lindsey não devia ter se exposto a esse tipo de humilhação?

Se você leu o livro, ou até mesmo se você gosta da artista ou se trabalha nesse ramo, deixe-nos seus comentários!

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