Discussão – Y: The Last Man volumes 1 e 2

4 de novembro de 2015

Já faz um bom tempo que estou querendo falar de uma série de comics que eu comecei a ler há um tempo, mas cuja leitura ainda não tive tempo de concluir: é a série Y: The Last Man, escrita pelo Brian K. Vaughan (o mesmo autor da série Saga, cujos comics ainda estão sendo lançados), com desenhos da Pia Guerra, publicada pela Vertigo e trazida ao Brasil com o nome de Y: O Último Homem pela Panini Livros. Como tenho o hábito de comentar os comics no blog ao invés de comentá-los no podcast, pensei em fazer uma coisa diferente desta vez: vou fazer uma série de posts sobre a série ao invés de me limitar a fazer reviews. O motivo pelo qual eu resolvi fazer isso é que:

  1. Reviews de comics são relativamente fáceis de fazer e podem ser encontrados em diversos lugares e

  2. A história mostra diversos aspectos interessantes da nossa sociedade retratados de forma bem realista em um mundo distópico. Na minha humilde opinião, uma simples resenha não seria o suficiente para falar a respeito dos diversos aspectos diferentes da série. Isso tudo sem contar que o Brian K. Vaughan tem feito um trabalho muito bom com a série Saga em retratar diversos personagens que não encontramos com tanta freqüência no mundo dos comics e aborda questões morais de um jeito que eu dificilmente vejo em quadrinhos do Batman ou do Capitão América, por exemplo.

A minha idéia é de fazer um post para cada comic que eu ler OU um post para cada dois ou três comics, dependendo do tanto que eu tiver para discutir a respeito de cada volume. Como eu já li os dois primeiros comics há um tempinho, vou dedicar este primeiro post a eles.

Para começo de conversa, a série trata de um rapaz norte-americano perfeitamente normal chamado Yorick Brown, que está ao telefone falando com a namorada pela qual ele está perdidamente apaixonado. Ele mora nos Estados Unidos, ela está na Austrália e ele decide que quer ir à Austrália para pedi-la em casamento. Tudo parece muito bem, o mundo gira, coisas acontecem em diversos lugares do mundo e aí, do nada, todos os seres vivos do sexo masculino do planeta Terra morrem. Todos… exceto o Yorick e seu macaquinho de estimação, o Ampersand. Essa ocorrência obviamente gera uma quantidade astronômica de repercussões e dúvidas, e a principal não poderia deixar de ser esta: “O que aconteceu??”

Bom, a partir daqui, vou começar a falar dos aspectos da história que levantaram alguns questionamentos. No entanto, para fazer isso, vou precisar mencionar diversas coisas que aconteceram durante os dois primeiros volumes da série de comics. Portanto, começa aqui a sessão de spoilers!!


Eu tenho que admitir que não me senti muito encantada com a história. Eu tinha achado a premissa interessantíssima. A maneira como as mulheres são representadas em termos gerais me agrada bastante. Para quem se acostumou com as mulheres idealizadas dos universos já consagrados dos comics, ver uma série que não representa mulheres de maneira hiper-sexualizada é bem bacana. Como eu e o Thiago sempre dizemos nos podcasts, é bastante irritante que essa variedade de representação seja um aspecto tão raro que sempre que vemos esse tipo de coisa, essa é a primeira característica que notamos, mas tudo bem. E logo de cara já temos uma variedade racial bem grande. Como o evento ocorre a um nível global, podemos observar mulheres guerrilheiras, mulheres em cargos políticos, ativistas, cientistas… todas elas com muita atitude e um forte tino de sobrevivência.

É importante que exista essa variedade de cargos e personalidades porque essa diferença de interesses e maneiras de enxergar a situação é o que vai movimentar a história. Quando eu era mais jovem, ouvi uma frase que dizia “Se as mulheres estivessem em postos de liderança, não haveria guerras no mundo”, seguida da resposta “se as mulheres estivessem em postos de liderança, elas falariam tanto que não haveria tempo para guerras”. O primeiro volume sozinho desmente essas duas frases. Quando grande parte da população masculina do mundo é eliminada, no minuto seguinte já temos a população sobrevivente se dividindo em diversas facções. Do lado político, continua existindo uma rixa fortíssima entre o partido republicano e o democrático (considerando a parte da história que se passa nos Estados Unidos). No grupo das civis, temos as mulheres sobreviventes, que ainda estão tentando entender o que aconteceu e fazendo o possível para sobreviver… e temos as femistas.

Acredito que exista bastante gente que ainda confunde “feministas” com “femistas”. Não vou entrar no mérito da questão porque acho que há muitas pessoas que podem explicar isso melhor do que eu, mas deixemos apenas um conceito bem claro: até onde é de meu ralo entendimento, feminista é uma pessoa que luta pela igualdade de gêneros, e femista é uma pessoa de detesta os homens. Dito isso, existe um grupo bastante interessante nesta história denominado “Daughters of the Amazon” (suponho que na versão traduzida o nome do grupo seja “Filhas da Amazona) que é composto essencialmente de mulheres femistas.

Enquanto eu ainda não compre os motivos pelos quais elas estão fazendo tudo aquilo, eu entendo o ódio que elas sentem e as motivações. Este grupo é uma das coisas que mais me irrita e, ao mesmo tempo, mais me intriga na história. O machismo é algo que presenciamos em longa data, certa? O que aconteceria se os papéis se invertessem? Essa questão é, na minha opinião, algo muito bem retratado e que gera ótimas discussões.

Outra questão bastante interessante levantada durante o primeiro comic e bastante passível de discussão é justamente um dos “rituais de iniciação” das Daughters of the Amazon: o lance de cortar o seio esquerdo (a explicação está nos comics, então não vou entrar em detalhes) que me lembra, em partes, o ritual de cortar a falange do dedo anelar como um gesto de iniciação no primeiro jogo da série Assassin’s Creed. O quão longe uma pessoa é capaz de chegar para ser aceita em um grupo e por que um grupo exigiria isso de alguém? Por que o ser humano tem essa necessidade de cometer atos de penitência?

E para encerrar a primeira parte da discussão, temos outras questões ótimas no segundo volume do comic. Primeiro, com relação à fidelidade em um relacionamento. A jornada do Yorick se dá por um motivo que eu considero meio bobo, que é o desejo dele de ir até a Austrália para se encontrar com a namorada em pedi-la em casamento. Tendo isso em mente, será que o fato de ele ter beijado a Sonia faz dele um ser absolutamente desprezível?

Acho que a única coisa que me incomodou bastante nessa história foi o fato de Hero, a irmã de Yorick, ter se virado contra ele durante a invasão à vila das mulheres de Marrisville. Achei a rivalidade meio desnecessária, sobretudo dadas as condições em que todos se encontravam. Não acho que uma relação de “você era o favorito do pai” seja uma boa justificativa para ela ter feito o que fez. Mas, pelo menos por enquanto, eu quero acreditar que exista um motivo pelo qual ela esteja fazendo tudo aquilo. Talvez lavagem cerebral?

De resto, o que foi aquela cena final, em que descobrimos que há dois homens na estação espacial que ainda estão vivos?

Agora… é esperar para ver o que vai acontecer a seguir!

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